Impostos sobre Apostas Online em Portugal

Documentos fiscais e uma calculadora sobre uma secretária com moedas de euro

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A pergunta que mais me fazem quando alguém descobre que trabalho com análise de apostas não é sobre odds ou bónus – é sobre impostos. “Se eu ganhar mil euros numa aposta, tenho de pagar IRS?” A resposta curta é não. Mas a resposta completa envolve perceber como funciona o sistema fiscal português para o jogo online, porque é diferente do que existe na maioria dos países europeus, e porque essa diferença afeta diretamente as odds que encontra nos operadores nacionais.

Portugal cobra impostos aos operadores, não aos jogadores. Esta é a frase que resume tudo, mas o diabo está nos detalhes. O imposto chama-se IEJO – Imposto Especial de Jogo Online – e a taxa é de 25% sobre a receita bruta de casino online, mais 8% sobre o volume mensal de apostas desportivas. São percentagens altas se comparadas com outros mercados europeus, e isso tem consequências que o apostador sente no bolso mesmo sem pagar um cêntimo ao Estado.

O IEJO: como funciona o imposto sobre o jogo online

No primeiro semestre de 2025, o IEJO gerou 163,9 milhões de euros em receita fiscal. Só no terceiro trimestre, foram mais 89,8 milhões – um crescimento de 8,8% face ao mesmo período do ano anterior. Estes números mostram que o Estado português ganha muito com o jogo online, e não tem incentivos para mudar o modelo.

O funcionamento é direto. Para o casino online – slots, roleta, blackjack – o operador paga 25% da diferença entre o que os jogadores apostaram e o que receberam de volta. Se num mês os jogadores de slots apostaram 10 milhões e receberam 9,5 milhões em prémios, a receita bruta é de 500 mil euros, e o imposto é de 125 mil. Para as apostas desportivas, a base é diferente: o imposto incide sobre o volume total apostado, não sobre a receita. Se num mês os apostadores colocaram 100 milhões em apostas desportivas, o operador paga 8 milhões ao Estado – independentemente de ter tido lucro ou prejuízo nesse mês.

Esta diferença é fundamental. No casino online, o operador paga sobre o lucro. Nas apostas desportivas, paga sobre o volume. É por isso que a carga fiscal efetiva nas apostas desportivas é proporcionalmente muito mais pesada. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem insistido neste ponto: o crescimento das receitas do Estado poderia ser ainda mais significativo com medidas que combatam o mercado ilegal e tornem o produto legal mais competitivo.

IRS sobre prémios: porque o apostador não paga

Quando comecei a acompanhar o mercado português, uma das primeiras coisas que confirmei foi esta: os jogadores de casas de apostas legais não pagam IRS sobre os prémios. Não importa se ganha 50 euros ou 50 mil euros – não há obrigação fiscal sobre o ganho. O imposto já foi pago pelo operador através do IEJO, e tributar o jogador seria cobrar duas vezes sobre a mesma atividade.

Isto é diferente do que acontece em vários outros países. Em Espanha, por exemplo, prémios acima de um determinado montante estão sujeitos a imposto. Em França, o sistema também difere. Portugal optou por um modelo que simplifica a vida do apostador mas que transfere toda a carga para os operadores – e os operadores, por sua vez, transferem parte desse custo para as odds.

Dito isto, há uma nuance que convém esclarecer. O regime de isenção aplica-se exclusivamente a casas de apostas com licença do SRIJ. Se apostar num site ilegal – sem licença em Portugal – e, por algum milagre burocrático, declarar os ganhos, a situação fiscal pode ser completamente diferente. Mas o cenário mais provável é que o site ilegal simplesmente não pague impostos a ninguém, e o jogador fique desprotegido em caso de disputa.

Uma dúvida que surge frequentemente é sobre prémios de valor elevado. Se ganhar uma acumuladora de 10.000 euros, o banco vai fazer perguntas? A resposta é: pode fazer. As instituições bancárias têm obrigações de comunicação de transações suspeitas ao abrigo da legislação anti-branqueamento. Mas uma transferência de uma casa de apostas licenciada é uma transação legítima e rastreável. Se o banco questionar, basta apresentar o comprovativo do levantamento na plataforma – algo que qualquer operador legal disponibiliza no histórico da conta.

Como o IEJO afeta as odds e os bónus em Portugal

Sempre que comparo odds entre o mercado português e mercados como o inglês ou o maltês, a diferença é visível. Uma partida que num operador internacional paga 1.95 para vitória da casa pode pagar 1.85 ou menos num operador licenciado em Portugal. A razão é simples: o operador português paga 8% de imposto sobre todo o volume apostado, e esse custo tem de ser absorvido em algum lado – ou na margem do operador, ou nas odds oferecidas ao apostador.

No terceiro trimestre de 2025, a margem dos operadores em apostas desportivas caiu para 19,8%, contra valores de 22,9 a 25,9% nos trimestres anteriores. Isto pode parecer positivo para o apostador – margens mais baixas significam odds teoricamente melhores. Mas o que aconteceu foi que a competição entre operadores forçou as margens para baixo, enquanto a carga fiscal se manteve. O resultado é uma pressão dupla sobre a rentabilidade dos operadores, que pode limitar a generosidade dos bónus oferecidos.

Na prática, o que isto significa para quem aposta é o seguinte: as odds em Portugal são estruturalmente menos competitivas do que em mercados com tributação mais leve. Os bónus de boas-vindas ajudam a compensar esta diferença nos primeiros dias, mas a longo prazo, o apostador regular sente o impacto do IEJO refletido em cada aposta que faz. Não é culpa dos operadores – é o custo de operar legalmente num mercado com esta estrutura fiscal.

Se quer perceber melhor como este impacto se traduz em números concretos e como comparar as odds entre operadores portugueses, temos uma análise dedicada a esse tema.

Perguntas frequentes sobre impostos nas apostas

Se ganhar um prémio grande nas apostas, tenho de declarar no IRS?
Não. Em Portugal, os prémios obtidos em casas de apostas com licença do SRIJ estão isentos de IRS. O imposto sobre o jogo online é pago integralmente pelo operador através do IEJO, pelo que o apostador não tem qualquer obrigação fiscal sobre os ganhos.
Quanto é que o Estado português recebe de impostos sobre o jogo online?
No primeiro semestre de 2025, o IEJO gerou 163,9 milhões de euros em receita fiscal. No terceiro trimestre, somaram-se mais 89,8 milhões. O valor total anual tem crescido consistentemente, acompanhando a expansão do mercado regulado.
O IEJO torna as odds portuguesas piores do que as de outros países?
Sim, de forma estrutural. O imposto de 8% sobre o volume de apostas desportivas é um dos mais altos da Europa e obriga os operadores a ajustar as odds oferecidas. Na prática, as cotações em Portugal tendem a ser ligeiramente inferiores às de mercados com tributação mais leve, como o Reino Unido ou Malta.