Volume de Apostas Desportivas em Portugal: 23 Mil Milhões de Euros e o Que Significam

Gráfico de barras com evolução trimestral do mercado de apostas num ecrã de computador

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Quando digo que o volume de apostas desportivas no mercado regulado português atingiu 23 mil milhões de euros em 2025, a reação mais comum é de espanto – “23 mil milhões? Num país com 10 milhões de pessoas?” A confusão é compreensível, e vem de uma distinção fundamental que a maioria dos artigos sobre apostas ignora: volume apostado e receita do operador são coisas completamente diferentes. Os 23 mil milhões não são dinheiro que os operadores ganharam – são o total de dinheiro que passou pelas plataformas em apostas. E a diferença entre os dois é o que realmente importa.

Evolução trimestral do volume apostado em 2025

No quarto trimestre de 2025, o volume total apostado atingiu 5,9 mil milhões de euros – um aumento de 15% face ao período homólogo. Ricardo Domingues, presidente da APAJO, comentou os dados do primeiro semestre com uma observação que se aplicou a todo o ano: uma tendência de desaceleração que já era expectável pelos operadores.

O volume cresceu em termos absolutos, mas o ritmo de crescimento abrandou. Em anos anteriores, os aumentos trimestrais eram de 20% ou mais. Em 2025, o crescimento estabilizou entre 10% e 15%. É um sinal de que o mercado está a atingir maturidade – há menos espaço para crescer simplesmente atraindo novos apostadores, e o crescimento futuro dependerá mais da migração do mercado ilegal para o legal e do aumento do volume por apostador.

As apostas desportivas geraram 123,6 milhões de euros de receita bruta no quarto trimestre, apesar de o volume apostado ter subido 7%. Como é possível? Porque a margem dos operadores caiu. Se mais dinheiro é apostado mas a diferença entre apostas e prémios pagos diminui, a receita estagna ou desce. Esta dinâmica é central para compreender o mercado: o volume cresce, mas os operadores estão a reter menos de cada euro apostado.

Volume apostado vs. receita bruta: a diferença que importa

A receita bruta do jogo online em Portugal atingiu 1,23 mil milhões de euros em 2025, com crescimento de 12% face a 2024. Mas o volume apostado foi de 23 mil milhões só em apostas desportivas. A diferença é enorme e revela a margem agregada do mercado.

Se os apostadores colocaram 23 mil milhões em apostas desportivas e os operadores ficaram com cerca de 450-500 milhões de receita bruta dessa modalidade (estimativa com base na proporção de 42,8% da receita total), a margem média foi de cerca de 2%. Isto significa que, por cada 100 euros apostados, o operador ficou com 2 euros e devolveu 98 euros em prémios. No terceiro trimestre, a margem específica caiu para 19,8% – mas atenção, esta é a margem sobre a receita, não sobre o volume. A margem sobre o volume é muito menor, na casa dos 2-3%.

Para o apostador, esta distinção é fundamental. O volume apostado inclui o mesmo dinheiro a circular várias vezes. Se depositar 100 euros e fizer 10 apostas de 10 euros cada, o volume apostado é 100 euros. Mas se ganhar 5 dessas apostas e reinvestir os ganhos, o volume pode facilmente chegar a 200 ou 300 euros a partir do mesmo depósito de 100. Os 23 mil milhões incluem esta reciclagem de fundos – não representam 23 mil milhões de dinheiro novo colocado no mercado.

O que os 23 mil milhões dizem sobre o mercado

O volume é, acima de tudo, um indicador de atividade. Um mercado com 23 mil milhões de volume e 1,23 milhões de apostadores ativos implica um volume médio por apostador de cerca de 18.700 euros por ano – ou 1.560 euros por mês. Este número parece alto para quem sabe que 70% dos apostadores gasta até 50 euros por mês. A explicação está na distribuição: uma minoria de apostadores de alto volume é responsável pela maioria do volume total. Os 30% que gastam mais de 50 euros por mês – e dentro desses, os que gastam centenas – concentram uma fatia desproporcional dos 23 mil milhões.

Esta concentração tem implicações práticas. As odds, os limites de aposta, e as funcionalidades das plataformas são desenhadas para servir tanto o apostador que coloca 5 euros por semana como o que coloca 500 euros por dia. Mas é o segundo que gera a maioria do volume e, consequentemente, da receita. Os bónus de boas-vindas e os limites de depósito são mecanismos que os operadores usam para atrair novos jogadores, mas o modelo de negócio depende, em larga medida, dos apostadores regulares de volume médio a alto.

Há ainda uma implicação para a leitura de odds: quanto maior o volume de apostas num mercado, mais eficientes tendem a ser as odds. Os 23 mil milhões passam maioritariamente por mercados de futebol das grandes ligas – é aí que a liquidez é maior e as odds mais justas. Em mercados com menor volume, as odds podem estar mais desfasadas da probabilidade real, criando oportunidades para apostadores com conhecimento específico mas também mais risco para apostadores sem informação.

Para o mercado como um todo, os 23 mil milhões confirmam que Portugal é um mercado de apostas significativo à escala europeia – não pela dimensão absoluta, que é pequena comparada com o Reino Unido ou a Itália, mas pelo volume per capita. Se quer perceber como estes números se refletem nas receitas dos operadores e nas tendências do mercado, o nosso guia sobre o mercado de apostas em números detalha a evolução trimestral e as perspetivas para 2026.

Perguntas frequentes sobre volume de apostas

Volume apostado e receita do operador são a mesma coisa?
Não. O volume apostado é o total de dinheiro colocado em apostas, incluindo fundos reciclados. A receita do operador é a diferença entre o que os apostadores apostaram e o que receberam em prémios. Em 2025, o volume de apostas desportivas foi de 23 mil milhões de euros, mas a receita bruta total do jogo online foi de 1,23 mil milhões.
O volume de apostas desportivas cresceu ou diminuiu em 2025?
Cresceu. O volume total apostado no quarto trimestre de 2025 atingiu 5,9 mil milhões de euros, um aumento de 15% face ao período homólogo. No entanto, o ritmo de crescimento abrandou face a anos anteriores, o que indica maturidade do mercado.